Posicionamento estratégico em um futuro elétrico

Por André Alves e Mauricio Moszkowicz.

Este artigo foi publicado na Agência CanalEnergia em 07 de setembro de 2021 (Clique aqui acessar o PDF).

O setor de transportes ocupa uma posição importante dentro das discussões sobre as mudanças climáticas e a busca pela descarbonização, uma vez que dados apontam que este segmento foi responsável, em 2017, por cerca de 24% das emissões mundiais de CO2. Em função deste panorama, as metas de descarbonização estabelecidas em acordos internacionais impõem ao setor de transportes um processo acelerado de substituição dos veículos à combustão por alternativas menos poluentes, com destaque à mobilidade elétrica.

Um desdobramento expressivo deste cenário é o Acordo de Paris, discutido durante a COP21, no qual foi definido o objetivo de se alcançar a marca de 100 milhões de carros elétricos em circulação no mundo, até 2050. Neste sentido, difundiram-se políticas públicas e metas em diversos países voltadas à implementação da mobilidade elétrica.

Dentre as políticas públicas, destacam-se medidas de incentivos aos consumidores, ações de apoio à difusão de infraestrutura de carregamento, promoção ao desenvolvimento tecnológico e restrições à venda de veículos à combustão. A título de exemplo, no ano passado, o Reino Unido anunciou a antecipação da proibição da venda de veículos à combustão a partir de 2030. Nos EUA, por sua vez, o Presidente Biden estipulou a meta de que, até 2030, 50% dos novos veículos vendidos no país sejam elétricos.

Em paralelo, a indústria automobilística mundial vem aderindo a políticas públicas, planos, programas e ações nacionais e internacionais direcionadas à mobilidade elétrica. Neste sentido, grupos tradicionais, como Volkswagen, GM, Ford, Mercedes e Volvo, estão estabelecendo metas voltadas ao aumento das vendas de veículos elétricos e, até mesmo, à interrupção das vendas de veículos à combustão.

Destaca-se que, à medida que se consolida a tendência de produção de veículos elétricos por meio de plataformas produtivas globalizadas, os ganhos de escala reduzirão os custos e, com isso, a mobilidade elétrica deverá avançar e dominar o segmento de transporte urbano. Projeções da International Energy Agency (IEA) indicam que, em um cenário mais otimista, o estoque de veículos elétricos alcançará a marca de 70 milhões de unidades, em 2025, e de 230 milhões, em 2030 . Em síntese, o que as projeções da IEA mostram é que a mobilidade elétrica já é uma realidade no âmbito mundial, sendo uma questão de tempo para que este processo seja observado também no Brasil.

A difusão da mobilidade elétrica traz uma série de oportunidades para as empresas do setor elétrico, dentre as quais diversas já planejam atuar como grandes investidoras neste novo segmento. A seguir, são apresentadas algumas destas oportunidades.

O processo de substituição das frotas à combustão por veículos elétricos provocará um aumento da demanda por eletricidade nos próximos anos. Observa-se que este movimento está aderente aos princípios Environmental, Social and Governance (ESG), que vêm recebendo grande destaque no mundo corporativo e que valoriza questões socioambientais e de governança sustentável.

Como consequência, o cenário mais otimista da IEA projeta que os postos de carregamento deverão representar globalmente uma demanda superior a 500 TWh no ano de 2030. No contexto da transição energética, é importante destacar que este aumento da demanda deve ser acompanhado pelo crescimento das fontes renováveis, como eólica, solar e biomassa, complementadas pela difusão de tecnologias de armazenamento.

Ademais, a difusão dos veículos elétricos irá propiciar a criação de um amplo leque de novos negócios para o segmento de distribuição de energia elétrica. Em função do monopólio natural e das informações que detêm, as distribuidoras ocupam uma posição estratégica para liderar o segmento de prestação de serviços de recarga de veículos elétricos. Destaca-se que esta infraestrutura é um pré-requisito para a difusão da mobilidade elétrica em países de grande extensão territorial, como o Brasil.

A abrangência da infraestrutura de recarga inclui tanto áreas privadas de uso público, como postos de serviços, estacionamentos de shoppings e supermercados, quanto áreas privadas, como condomínios, prédios comerciais, empresas e instalações da Administração Pública. Estendendo esta visão, pode-se incluir as frotas corporativas e empresas de logística, principalmente a denominada última milha (entrega final dos produtos em áreas urbanas).

No caso brasileiro, destaca-se a iniciativa pioneira da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), Através de uma chamada estratégica de projetos de pesquisa e desenvolvimento (P&D), a Agência possibilitou o desenvolvimento, pelas empresas do setor elétrico, de projetos em rede na esfera da mobilidade elétrica, com a participação do setor industrial e de serviços, bem como da Academia.

Estes projetos desenvolvidos no âmbito do Programa de P&D da ANEEL são marcantes exemplos de oportunidades de posicionamento estratégico em um novo paradigma, marcado pela descarbonização e pela eletrificação do setor de transportes. A inserção do setor elétrico no ecossistema da mobilidade elétrica propiciará o alcance de uma posição de liderança em um futuro em que a frota elétrica será predominante no país.

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